4 FILMES ATUAIS

Por Martin Cezar FeijóNa minha estreia do Conte com as 3, na forma de crônicas culturais, aonde falarei de livros, filmes, teatro e pensamento, gostaria de abordar quatro filmes em cartaz, não como crítico de cinema, mas como observador participante da contemporaneidade. Os filmes escol...

Por Martin Cezar Feijó

Na minha estreia do Conte com as 3, na forma de crônicas culturais, aonde falarei de livros, filmes, teatro e pensamento, gostaria de abordar quatro filmes em cartaz, não como crítico de cinema, mas como observador participante da contemporaneidade. Os filmes escolhidos tratam de gênero, sexualidade, violência e conhecimento, não necessariamente nesta ordem ou compartimentados, mas, em maior ou menor grau, todos os assuntos sendo tratados em cada filme.


O primeiro é um filme australiano que tem o sugestivo título de "A pequena morte". Na verdade, uma comédia picante que já se revela pelo título: "Le petit mort" é o nome que os franceses dão ao orgasmo. São histórias entrelaçadas de vários casais em suas buscas para ampliar as possibilidades de gozo nas relações afetivas, e para isto, como casais modernos, buscam várias formas, até as mais bizarras, para alcançar o prazer: da mulher que deseja ser estuprada a que fica excitada com as lágrimas do marido. Mas a situação mais interessante, - não por acaso, a última -, a tradutora de sinais que opera on-line atendendo um surdo-mudo dialogando com um atendimento telefônico de sexo à distância. Em suma, uma divertida representação sobre vários dilemas contemporâneos.

 



O segundo é um filme de Quentin Tarantino: "Os 8 odiados". E falar em Tarantino é falar em violência. Diálogos longos e reflexivos, situações estranhas. Um faroeste no melhor modelo clássico em cinema, resgatando "A última diligência"; mas também contemporâneo pela forma e desenvolvimento. Um caçador de recompensas carrega uma condenada à forca. Um outro caçador de recompensas pede carona à diligência para transportar corpos dos que já matou. Esta trajetória faz com que cheguem a uma hospedaria em que figuras estranhas já estão hospedadas. De um general confederado a um enforcador, ou pelo menos se apresenta como tal. Sujeitos que no decorrer do filme são reveladas suas verdadeiras identidades.

A cena mais forte é a que o caçador de recompensas interpretado por Samuel Jackson, provoca o general contando como tratou seu filho em uma captura durante a guerra civil. Não poderia ser por menos, tudo acaba em tiroteio, e a violência que faria com certeza a grande crítica norte-americana Pauline Kael rever seus comentários sobre o sadismo do filme brasileiro "O cangaceiro" como o filme mais violento já visto.

Mas o mais importante não é tanto a questão racial o tempo todo. É a personagem que está sendo transportada para ser enforcada. Como não quero antecipar a surpresa do roteiro, posso afirmar que aqui também há uma relação com gênero na forma que a única mulher desempenha um papel importante na resolução da trama do filme.

 



E por falar em gênero, não posso deixar de mencionar o filme “As sufragistas”. Um filme histórico nos dois sentidos; por se tratar de uma reconstituição de época primorosa, onde operárias passam a lutar em 1912 pelo direito do voto feminino em Londres e todos os preconceitos machistas e a violência policial; e pela contemporaneidade do tema, em que os direitos, apesar de tantas conquistas, as mulheres continuam a ser desprezados em várias partes do mundo. “A mulher é o negro do mundo”, cantou um dia o poeta John Lennon. “As sufragistas” nos lembra disto e aguça nossa percepção sobre o momento histórico-cultural  que vivemos.

 



Por fim, o que talvez seja o filme do ano por abordar um contexto atual que merece uma reflexão: “Spotlight – Segredos revelados”. O filme trata de uma equipe de reportagem de um jornal impresso em Boston em 2001 que é incumbida de fazer uma investigação sobre abusos sexuais cometidos contra crianças por parte de padres católicos e acobertados não só pela hierarquia religiosa, envolvendo um bispo, como pela elite da cidade. Assustador seria se fosse só ficção, mais assustador ainda é saber que é fundamentalmente baseado em fatos reais. Como uma elite, envolvendo advogados, cúpula religiosa, políticos e até imprensa se uniram para evitar que o escândalo viesse à tona.

Um filme sobre um escândalo que afetou a credibilidade da Igreja Católica, mas também um filme sobre jornalismo investigativo. E sobre o melhor jornalismo em tempos de opiniões subjetivas, onde a busca da verdade se perde em ódios expressos sem fundamentação. O filme pode até não levar o Oscar pelo caráter explosivo do tema, mas é um filme para marcar época, nossa época, uma época tão conturbada quanto transformadora.

 



 

 

 

 

Martin Cezar Feijó é escritor e professor na FACOM-FAAP. Autor de 10 livros, entre ficção e ensaios de história cultural e comunicação.