UMA DRAMATURGIA QUE REFLETE O BRASIL PROFUNDO

Samir Yazbek é um dramaturgo brasileiro que pensa seu tempo como poucos. Mantém uma pesquisa ...

Samir Yazbek é um dramaturgo brasileiro que pensa seu tempo como poucos. Mantém uma pesquisa estética, histórica e cultural desde seus primeiros trabalhos. Yazbek é um dramaturgo experiente: quatorze montagens com textos de sua autoria, na maioria das vezes também como encenador. E premiado. Autor de uma peça já clássica: O Fingidor, tendo como personagem principal o poeta Fernando Pessoa; que já foi apresentada em Portugal, transmitida na televisão e ainda vai virar filme, ultrapassando os limites de um palco, embora o palco que é o mundo, no sentido shakespeariano, não tenha limites. E Samir sabe disso, e busca incessantemente isto, a permanência do texto além de seu tempo e sua época.

Com este projeto atual, apoiado pelo SESC São Paulo, intitulado “Brasil – O Futuro que Nunca Chega” – em curtíssima temporada no Teatro SESC-Consolação, em cartaz até dia 10 de julho –, ele trata de temas (nem tão “específicos” assim) com grande coragem e criatividade: a abolição da escravatura em “Princesa Isabel” e a imigração libanesa em “D. Pedro II”.
Mas quem pensa que o teatro de Samir Yazbek é uma oportunista revisão histórica didaticamente apresentada está enganado. Ele faz uma profunda, e atual, releitura da história em um sentido que une, criativamente, aspectos diacrônicos, porque datados, e sincrônicos, porque presentes, da própria história do Brasil.
Em “Princesa Isabel”, representada pela atriz Gabriela Flores, em um modelo dramatúrgico até clássico, ele trata das contradições de uma abolição tardia – o Brasil foi o último país ocidental a abolir a escravidão – em que a princesa acreditava estar salvando a monarquia quando na verdade a enterrava de vez. A abolição foi em 1888 e o golpe da proclamação da República foi em 1889. Mas o pior foi o destino dos escravos “libertos”, que foram entregues à própria sorte; sem emprego, sem escola, sem futuro. Emocionante o discurso na perspectiva do escravo, representado pelo ator Rogério Brito, diante de um destino do qual ainda espera ser redimido.
Já em “D. Pedro II” há uma grata surpresa, tanto pela carpintaria teatral, e a maneira como articula o presente com o passado, envolvendo o ódio nas redes sociais e os dilemas dos conteúdos nos meios de comunicação. Do apresentador de televisão em crise de identidade e a figura de D. Pedro II em uma interpretação primorosa de Hélio Cícero, parceiro de Samir no projeto da companhia teatral Arnesto nos convidou, que transforma o imperador em um personagem trickster, revelando criticamente aspectos da imagem construída pelo discurso dominante. A peça relata o momento em que D. Pedro II convida libaneses a vir para o Brasil, permitindo assim associar temas como imigração, refugiados, racismo a uma crise existencial do personagem a procura de um tema para seu programa de televisão. Enfim, elementos que unem o subjetivo do apresentador de origem libanesa em crise (autobiográfico?) com o objetivo de como a história é construída e desconstruída. O individual e o coletivo em cena. Contemporâneo, enfim.
“Brasil, o futuro que nunca chega” merece ser visto nos dois momentos em que se completam. Em que o teatro recupera todo seu vigor em ser consciência crítica de seu tempo, sem perder o prazer estético de uma montagem honesta que valoriza a interpretação dos atores com recursos cênicos mínimos, valorizando o texto que se contempla na forma de um teatro que, se reflete um futuro que nunca chega, garante um presente mais compreensível, profundo e generoso.

 

 



 

Martin Cezar Feijó é escritor e professor na FACOM-FAAP. Autor de 10 livros, entre ficção e ensaios de história cultural e comunicação.