LADY MACBETH DO DISTRITO DE MTZENSK

O que é o Mal? Qual a natureza do Mal? Foi esta a pergunta que inspirou William...

O que é o Mal? Qual a natureza do Mal? Foi esta a pergunta que inspirou William Shakespeare (1564-1616) em criar sua obra mais sombria: Macbeth. Filósofos do século XX se perguntaram sobre o Mal. A mais famosa filósofa foi Hannah Arendt (1906-1975) que chegou a escrever um livro sobre o conceito da banalidade do Mal.: Eichmann em Jerusalém (1964), publicado em português pela editora Companhia das Letras.

Noé Gertel (1914-2002), um grande jornalista com o qual me orgulho de ter trabalhado junto, além de ter escrito um livro paradidático sobre a guerra civil paulista de 1932, e se tornado um grande amigo, dizia que era o livro de reportagem mais profundo que ele conhecia.

Hannah Arendt afirmava que o nazista Adolf Eichmann fazia parte de um mal radical (nazismo), mas na prática realizava um mal banal, pois agia sob ordens sem refletir sobre as conseqüências de seus atos, principalmente organizar o envio de judeus condenados à morte nos campos de concentração. Isto provocou uma grande polêmica.

Já outro filósofo, este católico, fez também uma reflexão bastante clara e profunda sobre o Mal: Louis Lavalle, em O Mal e o Sofrimento (1940), publicado em português pela editora É Realizações. O Mal é, para o Louis Lavalle, tudo aquilo que provoca sofrimentos: “O Mal que faço é antes de tudo um sofrimento que imponho ao outro; sendo assim, só me proporciona uma satisfação amarga.”

Escrevo tudo isso não só para falar sobre Shakespeare nos 400 anos de sua morte, mas também sobre uma ópera que foi apresentada no Teatro Municipal de São Paulo entre os dias 12 a 17 de julho de 20016: Lady Macbeth do Distrito de Mtsenk. Uma ópera com música de Dmitri Shostakóvitch (1906-1975), que também foi autor do libreto com auxílio de Alexander Preis entre setembro de 1931 e dezembro de 1932.

Apesar do título, a ópera não é diretamente baseada em obra de William Shakespeare, apesar da referência no título, se sim baseada na novela de Nikolai Leskov (1831-1895) com o mesmo título, em que há uma bela tradução de Paulo Bezerra publicada pela editora 34. Nesta obra, como no libreto, narra-se a história de Katerina, mulher do comerciante Zinoviy, que, ao se apaixonar pelo capataz Sergei, trai o marido e acaba promovendo todo o mal em direção a uma tragédia. Descoberta a traição pelo sogro, Katerina o envenena. Depois, com ajuda de Sergei, mata o próprio marido. Mistura, portanto, a Lady Macbeth de Shakespeare, que não vê freios morais para realizar seus intentos, com a provinciana Emma Bovary, do romance Madame Bovary, do francês Gustave Flaubert, que entediada pela vida na província, e cansada de seu marido mais velho, o trai, provocando a tragédia que culmina no seu suicídio.

A Katerina da novela e da ópera é mais radical, livra-se dos dois, sogro e marido, que atrapalhavam seus desejos. Curioso que as obras levam o título simbólico de Lady Macbeth, a influência de Bovary, mas o nome Katerina lembra o da comédia de Shakespeare A Megera Domada. Nada gratuito nessa relação: a adúltera, a assassina e a megera em uma única personagem, que busca sua liberdade e seu princípio do prazer sem levar em conta as conseqüências.

A ópera Lady Macbeth do Distrito de Mtzenk mantém a estrutura melodramática da ópera clássica, mas a música é moderna, dissonante e polifônica, o que desagradou o ditador Stálin ao assisti-la na estréia em Leningrado no dia 22 de janeiro de 1934. Stálin retirou-se no terceiro ato, demonstrando irritação não só com o enredo (o casal assassino é enviado para um terrível presídio na Sibéria, para onde eram enviados os presos políticos da época), mas também com a música vanguardista de Shostakóvitch, que não aderiu a uma estética obrigatória do realismo socialista.

Assim o grande estudioso da literatura russa Boris Schnaiderman comentou a relação entre a novela de Nicolai Leskov e a ópera: “O grande Shostakóvitch estava apaixonado justamente por Lady Macbeth do distrito de Mitzenk e compôs uma ópera cujo libreto se baseava nesta narrativa. Na realidade, era um verdadeiro desafio às normas vigentes, uma revolta do artista contra as limitações então impostas. Parece assombroso que o compositor o fizesse, um autêntico gesto de heroísmo, pois era evidente que o tema se chocava com tudo o que o Estado queria impor. Era a época dos famosos Processos de Moscou, depois do assassinato de Kirov em 1934, e os efeitos não se fizeram esperar: era a maldição do poder sobre toda a música dos grandes compositores russos da época”.

Uma obra que resgata o melhor do teatro (William Shakespeare), o melhor da literatura russa (Nikolai Leskov) com o melhor da música russa (Dmitri Shostakóvitchi). Em suma, em boa hora esta montagem russa, com artistas russos nos papéis principais - de maestro a cantores-, e brasileiros do Coral e músicos da Orquestra do Teatro Municipal. Um belo espetáculo, que entrará para a história de nossas encenações de música erudita em favor de uma cultura pluralista e não dogmática. Contemporânea, enfim.

E uma curiosidade, por fim: o compositor russo nasceu no mesmo ano que a filósofa alemã: 1906. E morreu no mesmo ano que ela: 1975; vivendo, portanto, rigorosamente, o mesmo período histórico em uma simultaneidade para além de simbólica. Personagens culturais fundamentais de um período que foi chamado por um de seus maiores historiadores de Era dos Extremos.