JULIETA: DE SHAKESPEARE A ALMODÓVAR

Uma das personagens femininas mais inteligentes da história do teatro é Julieta, de “Romeu e Julieta”, de ...

Uma das personagens femininas mais inteligentes da história do teatro é Julieta, de “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare. Personagem de uma tragédia de amor que se tornou um paradigma da dignidade humana, principalmente feminina. Julieta conhece o impulsivo Romeu em festa de sua família (Capuleto), na qual seria apresentada ao futuro marido, o bem sucedido e maduro Paris. Só que na festa, ocorrida na cidade italiana de Verona, em um domingo à noite, ela conhece, e se apaixona, pelo jovem Romeu Montecchio, que estava ali de penetra, já que pertencia à família inimiga do dono da casa.

No final da festa, Romeu retorna, correndo riscos, e na famosa cena do balcão namora a jovem Julieta. Corajosa, inteligente e determinada; diversa da impulsividade de Romeu, a partir daí causando várias mortes (seis em três dias). E nesse tempo, Julieta tenta consertar e estabelecer um roteiro que permita a sobrevivência de um amor tão poderoso.

Foi o motivo que me levou a assistir o filme “Julieta”, de Pedro Almodóvar (Espanha, 2016). Minha curiosidade partiu não só da filmografia do cineasta espanhol que admiro desde o início de sua carreira, nos míticos anos 1980, em plena movida madrileña, mas, principalmente, da relação que poderia haver entre sua personagem e a homônima personagem clássica da tragédia de William Shakespeare.



A personagem do filme de Almodóvar (representada em dois momentos de sua vida pelas belas atrizes Adriana Ugarte e Emma Suárez) é baseada em contos da escritora canadense Alice Munro, prêmio Nobel de Literatura em 2013. No filme, Julieta é uma professora de literatura clássica no ensino médio, Leciona sobre a relação entre o mito e a tragédia grega, enquanto sua vida se transforma em uma sucessão de acontecimentos entre os surpreendentes e trágicos: de um suicida que ela conhece no mesmo trem em que conhece o pai de sua filha, Antía Feijóo.

Mas a Julieta do filme não é trágica no sentido clássico, onde o enfrentamento do herói se dá diante de um destino inevitável. Nem no sentido shakesperiano, em que o herói tenta enfrentar o destino pela vontade. Mas no sentido de uma passividade na qual não interfere em nada no que envolve as pessoas que ama, e é cobrada por isso, além da culpa que carrega. Claro que é uma passividade que a torna cega das carências da filha, que a abandona em nome de uma espiritualidade segundo a própria filha recusada em sua formação.

Se a Julieta de Almodóvar se aproxima da Julieta de Shakespeare é exatamente pelo oposto. Enquanto a Julieta clássica, em era pré-moderna, tenta o tempo todo enfrentar e corrigir as forças do destino; a Julieta de Almodóvar, a partir de contos da escritora Alice Munro, não consegue enfrentar, em era pós-moderna, a força do acaso. Mais para a impulsividade passiva de Romeu do que pela inteligência pró-ativa de Julieta.

Um belo filme, que demonstra a maturidade de um artista que atinge o domínio de seus recursos, aproximando-o de um clássico.

 



 
Martin Cezar Feijó é escritor e professor na FACOM-FAAP. Autor de 10 livros, entre ficção e ensaios de história cultural e comunicação.