DESBUNDE COMO RESISTÊNCIA.

Contracultura – Alternative Arts and Social Transformation in Authoritarian Brazil, de autoria de Christopher Dunn.

Normalmente se conta a história da resistência ao regime militar no Brasil (1964-1985) a partir de dois enfoques: a opção pela luta armada ou em torno da unidade política das oposições. Quase nunca se reconhece ter havido uma forma alternativa de resistência, tida como alienada ou covarde, porque, principalmente, baseada em um estilo de vida, nas artes ou em uma perspectiva individual, e mais voltada para o prazer e liberdade. 

No Brasil esta alternativa foi denominada de desbunde de uma forma pejorativa.  E um livro recém-publicado em inglês, pela Universidade da Carolina do Norte, apresenta uma versão nova deste contexto: 

 

Contracultura – Alternative Arts and Social Transformation in Authoritarian Brazil, de autoria de Christopher Dunn. 

 

Um período ao mesmo tempo opressivo e marcado por uma profunda criatividade artística, que ia das artes plásticas à poesia, da música popular ao cinema, de Hélio Oiticica a Wally Salomão, de Caetano Veloso a Glauber Rocha, de Maria Bethania a Gal Costa. E embora o epicentro da contracultura no Brasil tenha sido a cidade do Rio de Janeiro, Salvador foi um cenário privilegiado de experimentalismo nas artes e nos costumes. Gerando até um acompanhamento da imprensa do sul, nem sempre com bons olhos.
        E uma imprensa alternativa também é destacada, a começar do semanário O Pasquim, que tinha entre seus jornalistas Luiz Carlos Maciel, pioneiro nas questões da contracultura no Brasil. Mas O Pasquim, apesar de Maciel, não poupou o que chamou “invasão dos baianos”, chamados de “baiunos” de forma jocosa. A resposta foram Os Doces Bárbaros. A Bahia como o oriente do Brasil. Contra a banalidade do mal, uma baianidade do bem.

Além da imprensa alternativa, que teve um papel fundamental na resistência, com sua pluralidade e abordando aspectos que atraiam uma juventude antenada culturalmente com as tendências mundiais, a contracultura no Brasil, estudada por Christopher Dunn, também aborda a importância da questão racial, como o exemplo do movimento Black Rio, onde se explica o aparecimento de um artista como Tim Maia, que, após tentar uma temporada nos EUA, desenvolve um projeto pessoal, inicialmente atrelado à Jovem Guarda a partir da música Soul

Não falta também no livro a questão sexual, do feminismo às orientações sexuais sendo discutidas. Temas como a homossexualidade ganham uma dimensão artística que explica a emergência de artistas que adotam um visual andrógino, como Ney Matogrosso, do grupo Secos & Molhados, do grupo Dzi Croquetes e até dos tropicalistas Caetano, Gil, Bethânia e Gal que se apresentam como um grupo intitulado Os Doce Bárbaros, causando até prisão de Gilberto Gil em Florianópolis por porte de maconha. 

Uma polêmica que gerou também uma defesa hoje bastante comum sobre a descriminalização da maconha.  Um debate atual, portanto. 

 

Mais uma ideia fora do lugar?

 

Já se disse que as ideias no Brasil chegam sempre fora do lugar, tendo o liberalismo em época de escravidão o melhor exemplo, mas estudos mais específicos demonstram que na modernidade, pelo menos no plano das ideias e sua correspondência social, o Brasil sempre esteve sintonizado com as questões centrais de seu tempo.  

Assim se deu com a contracultura que aqui adquiriu cores próprias, como demonstra as várias manifestações tropicalistas, no mesmo contexto em que a contracultura se manifestava no contexto anglo-saxão, acirrada com a posse de Richard Nixon, após a eleição em 1968 no governo norte-americano, o que não foi coincidência. 

No Brasil, o ano de 1968 foi marcado pelo auge e radicalização das manifestações estudantis, mas também pela decretação do AI-5 em dezembro, que instaurou uma ditadura sem disfarces, o que foi, claro, acompanhado de várias formas de resistência, da luta armada à reorganização da oposição em novos moldes de atuação, destacando-se a atuação do PCB na clandestinidade em torno de uma unidade política das oposições, o que demonstrou ser a opção realmente vitoriosa a partir dos anos 1980. 

O que este trabalho de Christopher Dunn demonstra com uma pesquisa bem cuidada e detalhada é que na esfera do comportamento e das artes também várias alternativas ocorreram, algumas no âmbito das vanguardas estéticas, no comportamento, até na cultura pop, com grandes sucessos de mercado. 

 

E não é o primeiro trabalho deste pesquisador e professor de cultura e literatura brasileira na Universidade Tulane em Nova Orleans que trata da questão. Antes ele havia escrito Brutalidade Jardim – A Tropicália e as origens da contracultura no Brasil, publicado aqui pela editora da UNESP.

 

O desbunde  - em vários níveis, dos estéticos aos comportamentais - também foi uma forma de resistência ao autoritarismo que deve ser levado em conta. 

 

E nestes tempos de Trump, que lembra em sua posse as extravagâncias direitistas de Nixon, o tema tem importância não só histórica, mas também se demonstra extremamente atual.  

 

 

Martin Cezar Feijó é formado em História pela FFLCH-USP e doutor em Ciências da Comunicação pela ECA-USP. Professor na Faculdade de Comunicação da FAAP e autor de vários livros, entre eles, O Revolucionário Cordial (Boitempo).