Mulher-Maravilha: Mito e História

O filme do ano? Depende. Talvez o filme do século. Do século XXI. Se o século XX foi chamado de “Século do Sexo”, o XXI pode ser o “Século da Mulher”.

O século do “empoderamento” da mulher, que até conseguirá criar um neologismo mais elegante do que este. Como pai de três lindas mulheres (Juliana, Maitê e Beatriz), fico tranqüilo e solidário na luta delas pela dignidade, liberdade e igualdade. 

E o filme Mulher-Maravilha pode ser o começo grandioso. Nas primeiras semanas de junho de 2017, quando teve estréia mundial, faturou mais de trezentos milhões de dólares pelo mundo, apesar de alguns países terem proibido o filme alegando que a atriz protagonista seja israelense, mas o motivo político-cultural pode ser outro, como se verá adiante. 

 

Uma foto histórica

 

Bem recebido pela crítica e pelo público, mesmo que mais de setenta e cinco anos depois de criação da personagem, e primeiro filme blockbuster de super-heróis dirigido por uma mulher (Patty Jenkins), marca o início de uma franquia que promete muitos filmes. Estrelado por Gal Gadot – minha musa atual -; o filme começa nos dias de hoje em Paris, quando uma linda e elegante mulher, que trabalha no Museu Louvre (curadora?), recebe uma caixa com uma foto enviada por Bruce Wayne, identidade secreta de Batman.

 

É a própria história demonstrada em uma foto emblemática, pressupondo combates e dramas. É a própria imagem de um século que se inicia, o XX, que foi denominado por um de seus maiores historiadores, Eric Hobsbawm, como  “Era dos Extremos”. Um século no qual se desenvolve o cinema e nasce a televisão, mas também uma aventura que atraiu o público jovem conhecida como HQ – História em Quadrinhos; em inglês, Comic Books, onde surgiram personagens como Super-Homem (de Jerry Siegel e Joe Shuster, em 1936) e Batman (de Bob Kane, em 1939).  

A II Guerra se aproximava, a cidade de Nova York fervilhava e um professor de psicologia de Harvard reclamava. William Moulton Marston (1893-1947) criticava o fato de só existirem super-heróis homens. Como feminista, e intelectual reconhecido, Marston foi convidado para criar uma personagem para os quadrinhos. Baseando-se na mitologia grega, a partir das Amazonas e de deusas: “Bela como Afrodite, sagaz como Atena, dotada da velocidade de Mercúrio e da força de Hércules, nós a conhecemos como Mulher-Maravilha” (Star-Comics, dezembro de 1941).  Marston criou a personagem e H.G. Peter foi o primeiro desenhista da princesa Diana de Temíscira, uma ilha utópica habitada só por mulheres, nascida de uma escultura de barro esculpida pela rainha Hipólita, cuja vida teria sido dada por Zeus, e que se tornaria a Mulher-Maravilha quando moça ao viver o mundo dos homens e das guerras.

 

As mulheres de Marston

 

Marston escreveu para 28 edições, até sua morte em 1947. Como professor de psicologia em Harvard, por onde se formou, estudando em vários departamentos (Psicologia, História, Filosofia e Direito), se notabilizou pela invenção de um detector de mentiras, o que sugeriu o laço mágico da verdade usado por Mulher-Maravilha.  Fã das sufragistas, William foi casado com Sadie Elizabeth Holloway, que tentou cursar Harvard, mas a universidade não aceitava mulheres, se formando em escola feminina, mas sendo uma parceira inseparável de Marston. Holloway usava  braceletes, era ativista da luta das mulheres e lia Safo no original grego. Pode até ter inspirado não só a personagem, como também, por exemplo, uma expressão empregada pela super-heroína:“Safo sofredora!”. 

 

Sadie Holloway formou-se em Mount Holyoke em 1915. Como diz a historiadora Jill Lapore, a mais importante estudiosa sobre a Mulher-Maravilha, autora do excelente A história secreta de Mulher-Maravilha (publicado em tradução para o português pela editora Best-Seller, recém-lançado): Sadie “havia cortado o cabelo. Por baixo do cabelo, usava corte Chanel com os cachos talhados logo acima da nuca”, em moda tida como inspirada nas revolucionárias russas. Eles se casam em 1915, mas logo ele se alista no exército para participar da guerra. Com o término da guerra, já em setembro de 1919, “Marston matriculou-se no doutorado em filosofia de Harvard; Holoway, grávida de cinco meses, matriculou-se  no mestrado de Radcliff” . Em 1925, Marston conhece uma jovem aluna, que se torna posteriormente sua assistente, Olive Byrne: sofisticada, rebelde, sobrinha de uma feminista famosa, tornou-se companheira do casal Marston-Holloway; formando um trio poliamor consensual, em um estilo de vida definido por ele como “anticonformista”.

 

História e Mito

 

Claro que aspectos biográficos do criador de Mulher-Maravilha não explicam tudo, mas são reveladores de suas bases intelectuais e inspirações. Até porque a super-heroína somente foi criada em 1941, já no contexto da II Guerra Mundial. Da criação ao filme de 2017, muitas transformações político-culturais ocorreram no contexto ocidental, particularmente no anglo-saxão.  Mas também não se entende profundamente o filme sem este repertório feminino e feminista das origens da personagem, incluindo vários diálogos do filme que incomoda machistas assumidos (como os que proibiram o filme) ou envergonhados (que o desprezam se utilizando de alegações “estéticas”). 

A ambição do filme Mulher-Maravilha está em todos os detalhes, harmoniosamente construídos: a relação com a fotografia - importante em três grandes momentos do filme (começo, meio e fim) -, com a moda, com a questão do gênero, e, principalmente, com o a sexualidade (como nos diálogos do barco entre a personagem e Steve Trevor; ele, um homem comum, ela, uma deusa).

Mas é principalmente na relação entre a história - contexto da primeira guerra mundial (1914-1918), que inaugura o século XX, de tantas transformações -  e o mito, entre Eros e Tanatos, Amor e Morte, Paz e Guerra, Mulher-Maravilha e Ares. 

Uma deusa dotada de beleza, força, um laço mágico, e uma espada “matadora de deuses”. Mas também de um conceito político-cultural que pode marcar o século XXI como o século em que as mulheres conquistarão o mundo, mesmo que seja pelo princípio defendido por William Moulton Marston com um toque de perversão, mas com grande dose de simbolismo; aspecto também demonstrado no belo e subestimado filme de Roman Polanski, inspirado na obra de Leopold Von Sacher-Masoch, a partir de uma peça teatral de David Ives, “A Pele da Vênus” (Venus in Fur, 2013): “Dê aos homens uma mulher sedutora, dotada de um laço mágico, e mais forte do que eles, e logo estarão dispostos a se tornar escravos delas.” 

        
Que venha, pois, este século tão perigoso quanto fascinante! Evoé Afrodite!