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Roberta Malta Saldanha lança o livro “Histórias, lendas e curiosidades da confeitaria e suas receitas”

A obra faz um passeio pela confeitaria do Brasil e do mundo...

A obra faz um passeio pela confeitaria do Brasil e do mundo através dos tempos e reúne 100 receitas de doces tradicionais – do doce de leite ao pastel de Belém, da rapadura à Torta de Santigo –  e releituras de chefs convidados, como Emmanuel Bassoleil, Edinho Engel, Flavio Federico, Rodrigo Oliveira e Rogério Shimura

 Da autora de “Histórias, lendas e curiosidades da gastronomia” (Prêmio Jabuti, 2012) e “Dicionário de termos gastronômicos em seis idiomas”, o livro é publicado pela editora Senac

 



“Vote no brigadeiro, que é bonito e é solteiro”. Verdadeiro patrimônio da confeitaria brasileira, o brigadeiro tem por trás de sua origem uma história política. Feito com leite condensado e chocolate em pó, o doce foi criado em 1945 por mulheres que apoiavam o então candidato à presidência do país, o brigadeiro Eduardo Gomes (União Democrática Nacional) – homem alto, charmoso e de olhos azuis, que nunca se casou – e era vendido para arrecadar fundos para sua campanha. Gomes perdeu feio, teve 35% dos votos contra os 55% do marechal Eurico Gaspar Dutra (Partido Social Democrata), protegido do presidente Getúlio Vargas, mas a receita do “docinho do brigadeiro” triunfou.

Foi reunindo fatos e particularidades de doces como este, que escritora paulista Roberta Malta Saldanha chegou ao seu oitavo livro, “Histórias, lendas e curiosidades da confeitaria e suas receitas”, que acaba de ser lançado pela editora Senac. Autora de “Dicionário de termos gastronômicos em seis idiomas” e “Histórias, lendas e curiosidades da gastronomia”, vencedor do Prêmio Jabuti em 2012, ela descobriu sua paixão – e curiosidade – pela culinária e vinhos ao ser convidada para participar da criação do primeiro grande evento gastronômico do país, o Boa Mesa, nos anos 1990.

Em sua nova obra, Saldanha faz um passeio pela confeitaria do Brasil e do mundo através dos tempos, revelando as histórias que existem por trás de cada uma das 100 receitas de doces selecionadas pela autora. Muitas são de domínio público e vêm sendo feitas e aprimoradas ao longo dos séculos. É o caso do doce de leite, muito popular na culinária brasileira, mas que tem origem na Argentina colonial.

Era 1829 e o país vivia uma guerra civil. Lutando em lados opostos, os generais Juan Manuel de Rosas e Juan Galo de Lavalle tinham um passado em comum: foram alimentados pela mesma ama de leite, a negra Natália. A luta já durava tempos, quando Lavalle resolveu procurar Rosas em seu acampamento para propor uma trégua. Lá chegando, cansado da cavalgada, não encontrou ninguém e decidiu descansar. Natália, cozinheira da tropa, preparava uma lechada para o lanche e ao se deparar com Lavalle dormindo no lugar de Rosas, saiu correndo em busca ajuda, temendo um confronto entre os filhos de leite. Ela largou a panela no fogo e quando voltou, encontrou um creme grosso, com cor de caramelo. Tinha “inventado” o doce de leite.

A rapadura, disseminada pela cultura nordestina – era misturada à farinha de mandioca por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, para garantir a sobrevivência de seus cangaceiros em meio à aridez do sertão – pode ter surgido nas ilhas Canárias ou no arquipélago dos Açores, chegando ao Brasil, no século XVI. Durante a fabricação do açúcar, as superfícies duras, que ficavam presas às paredes dos tachos, eram aquecidas e colocadas em formas semelhantes às de tijolos – nascendo assim as rapaduras.

A obra também resgata receitas que são ícones de outros países, como o português pastel de Belém. Em 30 de maio de 1834, por decreto do governo de D. Pedro, todos os conventos, mosteiros e demais casas religiosas foram extintas de Portugal.  Para sobreviver, os monges do Mosteiro dos Jerônimos passaram a vender pastéis de nata em uma pequena loja contígua ao mosteiro, aproveitando o grande fluxo de pessoas atraídas a Lisboa para conhecer a Torre de Belém. Deu tão certo a iniciativa que, em 1837, a lojinha se tornou a Casa Pastéis de Belém e iniciou a fabricação do pastel de Belém, segundo a antiga receita secreta que é conhecida apenas pelos mestres pasteleiros que produzem o doce artesanalmente e que, ao serem contratados, assinam um termo de confidencialidade.

A espanhola Torta de Santiago tem origem ainda mais antiga. Tiago, um dos 12 apóstolos de Jesus Cristo, nasceu na Galileia. Foi para a Espanha pregar o Evangelho, mas voltou para a Palestina, onde, no ano 42, por ordem do rei Herodes Agripa, foi torturado e decapitado. Seu corpo foi levado para cidade espanhola de Iria Flávia e sepultado secretamente. Diz a lenda, que no século IX, uma “chuva de estrelas” levou um ermitão a descobrir seu túmulo. O rei Afonso II das Astúrias mandou construir uma igreja no local e em pouco tempo, uma cidade foi erguida ali e chamada de Compostela. Na Idade Média, Santiago de Compostela era o terceiro mais importante lugar de peregrinação dos cristãos, depois de Jerusalém e Roma, e desde essa época, a cidade oferece a Torta de Santiago, elaborada com amêndoas, coberta com açúcar de confeiteiro e decorada com a cruz da Ordem dos Cavaleiros de Santiago.

Entre as receitas que levam o nome de seus criadores, está o bolo Souza Leão, obra da exímia cozinheira D. Rita de Cássia Souza Leão Bezerra Cavalcanti, do engenho São Bartolomeu, em Jaboatão dos Guararapes (PE). Feito com açúcar, massa de mandioca, leite de coco, ovos e manteiga, o bolo foi oferecido a D. Pedro II e D. Teresa Cristina, por ocasião de sua visita a Pernambuco, em 1859, sendo declarado um Patrimônio Cultural e Imaterial do Estado.

Há ainda doces que foram produzidos como uma forma de homenagem. É o caso da torta Marta Rocha, a baiana que foi eleita Miss Brasil aos 21 anos, ostentando 1,70 m de altura, 58 kg, 92 cm de busto, 59 cm de cintura e 97 cm de quadris. Dizem que por duas polegadas, ou cerca de 5 cm, ela perdeu o Miss Universo 1954 para uma norte-americana, deixando inconformados milhões de fãs, entre eles, o espanhol Jesus Alvarez Terzado, proprietário de uma confeitaria  em Curitiba. Para homenagear sua musa, Jesus resolveu que daquele momento em diante, sua maior criação, uma torta com creme de ovos, coco, ameixa-preta e doce de leite e coberta de fondant, passaria a se chamar torta Martha Rocha. A miss não gostou, nem sequer provou a torta. “Acho que tem muita gente ganhando dinheiro à minha custa”, afirmou à época.

 

RECEITAS DE FAMÍLIA E CHEFS CONVIDADOS

Memórias e tradições de família estão presentes em “Histórias, lendas e curiosidades da confeitaria e suas receitas”. É da mãe da escritora, Helena Guimarães Malta Saldanha, as receitas de baba de moça, bolo de rolo e quindim. De sua avó Nuncia (Maria Anuncada Guimarães Malta), o bolo de São João, e da vovó Alice (Martins Saldanha), o doce de marmelo.

O livro tem ainda a participação de grandes chefs de cozinha e confeiteiros, que – mais do que dar receitas – reinterpretam doces clássicos. O chef Emmanuel Bassoleil (Skye) assina o mil-folhas de chocolate com calda de laranja e limão, Edinho Engel (Manacá e Amado), a musse de coco com baba de moça, e Rodrigo Oliveira (Mocotó e Esquina Mocotó), o sorvete de rapadura e o bolo de chocolate com geleia de cupuaçu e castanha do Pará.

 O chef confeiteiro Flavio Federico apresenta versões inusitadas de macarons: de caipirinha e de cupuaçu com rapadura. Já o painificador Rogério Shimura, além de um tradicional panetone de frutas, ensina também a rabanada de minipanetone.

 

SOBRE A AUTORA

 

Roberta Malta Saldanha é paulista e bacharel em Comunicação Social. Iniciou a carreira na Editora Abril, onde atuou nas revistas Exame Vip (em São Paulo) e Veja Rio e Veja (no Rio de Janeiro). Idealizou a revista Pense Leve, dos Vigilantes do Peso no Brasil, e colaborou em sua consolidação com a Segmento Editora. Em 1994, abriu a RJF Marketing e Promoções e foi convidada a planejar e executar o evento gastronômico Boa Mesa.

Escreveu os livros: Dicionário tradutor de gastronomia em seis línguas (Bellini, 2007); Histórias, lendas e curiosidades da gastronomia (Senac, 2011) – premiado com o Jabuti em  2012;  Minidicionário de enologia em 6 idiomas (Senac, 2012); Vinho: Histórias, particularidades e seus destilados (Boccati, 2013); Sabores da Copa (Arte Ensaio, 2014); História do vinho na Serra Gaúcha (Arte Ensaio, 2014); Dicionário de termos gastronômicos em seis idiomas (Senac, 2015).

 

HISTÓRIAS, LENDAS E CURIOSIDADES DA CONFEITARIA E SUAS RECEITAS – ROBERTA MALTA SALDANHA

ISBN: 978-85-7756-331-9

Páginas: 336 | Formato: 13cm x 18cm

Preço sugerido: 68,00